Foi exatamente nesse ambiente que Castorina avistou, pela primeira vez, o célebre jornalista cearense radicado no Rio de Janeiro, José Edmar de Oliveira Morel — conhecido em todo o país simplesmente como Edmar Morel — uma das estrelas da prestigiosa revista semanal de circulação nacional O Cruzeiro.
O ano foi em 1942, quando João Porto Caminha exercia o cargo de Prefeito nomeado pelo interventor Federal Menezes Pimentel, cujo apelido o identificava como Carretel de Linha Preta
Edmar Morel fora convidado a integrar a equipe do cineasta norte‑americano Orson Welles, que viera ao Ceará para registrar, pelo cinema, a epopeia dos jangadeiros cearenses — aqueles mesmos que empreenderam a viagem histórica de Fortaleza ao Rio de Janeiro, em busca de melhores condições de vida para os pescadores brasileiros, a serem pleiteadas diretamente ao então presidente Getúlio Vargas.
Foi então que Edmar Morel aproveitou a ocasião, para iniciar sua pesquisa sobre a vida de Francisco José do Nascimento, o Dragão do Mar, vindo ao Aracati em busca de subsídios para seu livro: Dragão do Mar, o Jangadeiro da Abolição.
Aracati, naquele tempo, guardava uma melancolia antiga, quase imóvel. Como bem registrou Abelardo Gurgel Costa Lima, escritor de Terra Aracatiense, era uma “cidade tristemente triste[1]”, sem vida que lhe animasse as horas, sem o vai‑e‑vem que quebrasse a monotonia dos dias. As ruas, quase sempre vazias, permaneciam sem calçamento, e bastava a brisa se atrever um pouco mais para erguer nuvens de pó que irritavam e sufocavam os poucos transeuntes. Uma paisagem parada, suspensa no tempo, que parecia esperar, sem pressa, por qualquer sopro de mudança.
Morel era um tipo baixote, lépido, impossível de acompanhar. Era exigente ao extremo e teimoso como só repórter calejado sabe ser. Farejava a notícia com a precisão de quem já nasceu com o ofício no sangue, e não descansava enquanto não arrancava do mundo a resposta que procurava.
Ao chegar ao Aracati, o famoso repórter dos Diários Associados dirigiu‑se imediatamente ao Paço Municipal, certo de que encontraria no prefeito o apoio substancial de que precisava para suas pesquisas. Não o encontrando, foi recebido pela secretária, Sra. Risoleta Barbosa, que, atendendo ao pedido de Morel, providenciou o jipe do Cel. Zé Fernandes (um dos poucos existentes na cidade) conduzido pelo motorista Joca, encarregado de levá‑lo até Canoa Quebrada, terra de Dragão do Mar.
A estada de Edmar Morel em Aracati transformou‑se num rebuliço exasperado para os funcionários da Prefeitura. Acostumados à pasmaceira e à indolência do dia a dia, viram‑se de repente obrigados a se desdobrar para atender às exigências do famoso repórter, sempre tomado por uma ânsia impaciente de saber tudo, e depressa, sobre o que indagava.
Impaciente com aquele alvoroço que quebrava a calmaria habitual da Prefeitura, Castorina, ansiosa, ia e vinha pela sala da secretária, num entra‑e‑sai aflito. Até que, não se contendo mais, resolveu falar:
— Risoleta, despacha esse “Ponteiro de Segundos” para o lugar dele... Chega de tanto provimento!
[1] LIMA, A. G. C. As cidades Mortas, Jeca Tatu e o Aracati. O Jaguaribe. Aracati, 04 jan. 1942.
