Por muito tempo o Teatro São José foi a principal casa de diversão da cidade, recebendo em seu palco companhias teatrais que aqui vinham exibir suas representações.
Com o surgimento de um espaço verdadeiramente dedicado às artes cênicas, muitas associações teatrais foram criadas em Aracati. Nelas, moças e rapazes, sob a orientação atenta de Dona Chiquinha Clotilde e do Dr. Eduardo Dias, desempenhavam seus papéis com tal dedicação que frequentemente se destacavam pela qualidade das interpretações, recebendo o aplauso caloroso das plateias que prestigiavam as apresentações.
Numa dessas emocionantes noitadas de arte, promoveu-se um concurso de poesias que teria como declamadores jovens atores amadores. A expectativa era grande e a plateia, que lotava o recém-inaugurado salão do Cine Teatro São José, aguardava ansiosamente o início da disputa, envolta no ambiente garbosamente decorado para aquela ocasião.
Castorina Pinto integrava um séquito de prendadas moças da sociedade aracatiense, todas vestidas a caráter e paramentadas com o que havia de mais chique e moderno à época. Ao adentrarem o foyer do teatro, causaram imediato frisson na rapaziada, que se esmerava em elegantes salamaleques e galanteios.
Desses encontros, muitos casais se formaram e constituíram família. Eram, afinal, os raros momentos em que as moças daquele tempo podiam interagir com os rapazes longe do olhar fiscalizador de algum membro da família.
Foi exatamente nessa noite de festa que Castorina, que sempre guardara consigo um certo quê de desilusão em relação aos homens, deixou-se tomar pela curiosidade ao notar um rapaz que se postava no palco, pronto para iniciar a declamação da poesia.
Para a flor da sociedade
Do teto romper o dique
Fundou-se aqui na cidade
O novo Bar – Ponto Chic
Quem aprecia o que é bom
Em casa, sempre, não fique
prime no gosto e no tom
Visitando o Ponto Chic
Moço de linha também
De melindre e tremelique
Não se esqueça escute bem
Prefira só Ponto Chic.[1]
Ao findar sua exibição, rodopiando sobre os calcanhares, deu uma rabissaca ciclônica no palco que levantou poeira no salão.Castorina perplexa não se conteve:
— Esse não me engana! É uma Cédula Falsa!
[1] Poema publicado no Jornal O Jaguaribe.
