À época, o envio de correspondências por via aérea era feito em um tipo muito particular de envelope: papel finíssimo, quase translúcido, leve como um sopro, próprio para não pesar nas malas postais que cruzavam os céus. Esses envelopes, amplamente utilizados nos correios, eram conhecidos por todos como envelopes aéreos e faziam parte do cotidiano de quem precisava se comunicar com rapidez.
Foi nesse cenário, entre reverências e deferências, que o arcebispo esteve em Aracati. E, embora cercado de respeito, não escapou de ingressar no folclore local graças à verve espirituosa de uma personagem já célebre na cidade: Castorina Pinto — mulher de humor afiado, olhar observador e talento singular para batizar pessoas com apelidos que, uma vez ditos, colavam-se para sempre.
Castorina, entretanto, negava terminantemente ter apelidado bispos. — Padre, sim, dizia ela, com a franqueza que lhe era peculiar. — Bispo, nunca. Segundo afirmava, quem tinha esse atrevimento era seu irmão, Teófilo Pinto. Mas o povo, que guarda a memória com mais fidelidade do que documentos, insiste em atribuir a ela a autoria de dois apelidos que atravessaram gerações.
E foi assim que, mesmo com toda a negação da protagonista, o folclore aracatiense registrou que o magro, ascético e respeitável D. Antônio de Almeida Lustosa ganhou, por obra da língua ferina e do humor certeiro de Castorina, o apelido que o eternizou na história local: Envelope Aéreo.
