Como sempre sucede nessas excursões políticas pelo interior, acabam se ajuntando a elas certas figuras de ex‑políticos que, embora já tenham perdido o prestígio e a influência de outros tempos, insistem em permanecer nas lides partidárias, na vã esperança de reavivar o passado e escapar ao completo esquecimento.
Nessa ocasião, as figuras de maior prestígio da comitiva do deputado Raul Barbosa hospedaram‑se na residência do industrial Renato Porto Costa Lima Caminha, enquanto o séquito de menor importância ficou alojado no hotel de Teófilo Pinto, onde Castorina Pinto era administradora.
Entre as figuras do 2º escalão, encontrava‑se um outrora afamado mandachuva da política cearense, que perdera para sempre o prestígio de que gozara nos salões do poder federal, ficando igualmente despojado da fortuna, dos amigos e correligionários.
Foi oferecido, por ocasião da visita do deputado Raul Barbosa, um lauto banquete aos visitantes, servido na residência do ilustre anfitrião Renato Caminha, onde a comitiva pôde exibir todo o cerimonial e a pompa que tais ocasiões costumam inspirar.
Às dezenove horas em ponto, surge no alto da imponente escadaria senhorial que levava à portaria do hotel o desvalido político acolhido por Castorina, trajando um paletó transpassado de linho branco, de ombreiras salientes, e dirige à sua anfitriã a indagação que lhe fervilhava na língua:
— Dona Castorina, qual é mesmo o caminho para a casa onde se dá o banquete?
— Espere um pouco.
Castorina saiu de mansinho, chamou a um canto da sala Polar, um molecote sarará, auxiliar de quarteiro do hotel, e, apontando para o desusado que aguardava a resposta, disparou:
— Polar, leva aquele Cachimbo Apagado a casa de Renato.
